Transplante

Setembro Verde: morte encefálica, doação de órgãos e o papel da família

Por · 14/9/2026

Entender como funciona o diagnóstico e conversar sobre a vontade de doar ainda em vida são passos decisivos para que uma decisão individual possa se transformar em novas chances para outras pessoas.

A morte encefálica ainda provoca dúvidas. Para muitas famílias, é difícil compreender como uma pessoa pode estar legalmente morta e, ao mesmo tempo, manter batimentos cardíacos e alguns órgãos funcionando por um período com ajuda de equipamentos. Esse entendimento é central no processo de doação de órgãos.

No Setembro Verde, mês de conscientização sobre a doação, o Hospital Angelina Caron reforça uma informação importante: morte encefálica não é coma e não representa uma possibilidade de recuperação. Trata-se da perda completa e irreversível das funções do encéfalo, incluindo o tronco cerebral, responsável por funções vitais como a respiração. Quando o diagnóstico é confirmado de acordo com o protocolo médico, o óbito está estabelecido.

“Para a família, esse costuma ser um momento muito difícil porque existe uma aparente contradição entre aquilo que os olhos enxergam e o diagnóstico médico. O coração pode continuar batendo por algum tempo com suporte intensivo, o tórax se movimenta por causa do ventilador e a pele pode permanecer aquecida. Mas, na morte encefálica, não há possibilidade de retorno das funções cerebrais”, explica a Dra. Fernanda Resende, intensivista do Hospital Angelina Caron.

Como é confirmado o diagnóstico de morte encefálica?

O diagnóstico segue critérios nacionais definidos pelo Conselho Federal de Medicina e não depende da decisão de doar órgãos. Antes de iniciar o protocolo, os médicos precisam identificar uma lesão encefálica de causa conhecida, irreversível e capaz de provocar morte encefálica. Também devem excluir situações que possam confundir a avaliação, como determinadas alterações clínicas ou efeito de medicamentos. Há ainda requisitos de estabilidade do paciente e um período mínimo de observação hospitalar.

A confirmação exige etapas obrigatórias:

  1. Dois exames clínicos, realizados por médicos diferentes e capacitados, para demonstrar coma não perceptivo e ausência das funções do tronco encefálico.
  2. Teste de apneia, feito para verificar se existe qualquer movimento respiratório espontâneo diante do estímulo adequado.
  3. Exame complementar, que deve comprovar ausência de perfusão sanguínea, atividade metabólica ou atividade elétrica encefálica.

Para pessoas com mais de 2 anos, o intervalo mínimo entre os dois exames clínicos é de uma hora. Em crianças menores, os intervalos são maiores e variam conforme a idade.

“Existe uma sequência rigorosa justamente para dar segurança ao diagnóstico. Não é uma impressão da equipe nem uma decisão tomada em função da possibilidade de transplante. Primeiro se confirma a morte encefálica. A discussão sobre doação acontece depois”, afirma Dra. Fernanda.

Outro ponto importante é a independência das equipes. Os médicos responsáveis pela determinação da morte encefálica não podem fazer parte da equipe que realizará a retirada ou o transplante dos órgãos.

Morte encefálica e coma são a mesma coisa?

Não. No coma, existe atividade encefálica e, dependendo da causa e da gravidade, pode haver possibilidade de recuperação. Na morte encefálica, houve perda completa e irreversível das funções encefálicas. É justamente essa diferença que permite compreender por que a morte encefálica é considerada morte do indivíduo.

“O termo ‘morte cerebral’ ainda é bastante utilizado pelas pessoas, mas tecnicamente falamos em morte encefálica porque o diagnóstico envolve o encéfalo como um todo, inclusive o tronco cerebral. Uma vez preenchidos todos os critérios e concluído o protocolo, o diagnóstico é definitivo”, esclarece a Dra. Fernanda.

Toda pessoa que morre pode ser doadora de órgãos?

Não. Para a doação de órgãos como coração, pulmões, fígado, rins e pâncreas de um doador falecido, em regra é necessário que tenha ocorrido morte encefálica em ambiente hospitalar, com circulação sanguínea mantida temporariamente por suporte intensivo. Isso permite preservar os órgãos enquanto é avaliada a possibilidade de doação.

Depois da confirmação da morte encefálica e da autorização da família, a equipe responsável ainda avalia se existem condições clínicas para a doação. Nem todo potencial doador será efetivamente doador, porque é necessário analisar a viabilidade dos órgãos e tecidos, condições clínicas, exames e possíveis contraindicações. Quando a morte ocorre por parada cardiorrespiratória, sem diagnóstico prévio de morte encefálica, pode haver possibilidade de doação de tecidos, como córneas, de acordo com os critérios médicos aplicáveis.

Quem decide sobre a doação?

No Brasil, a resposta é objetiva: a família.

Mesmo quando uma pessoa disse em vida que queria ser doadora, a retirada dos órgãos e tecidos só ocorre após autorização familiar. Se a família não autorizar, a doação não é realizada. Por isso, manifestar a vontade enquanto se está vivo é importante, mas conversar sobre ela é ainda mais importante.

“Quando a família já conhece a vontade daquela pessoa, a decisão tende a acontecer em um contexto diferente. Em meio ao luto, os familiares não precisam tentar imaginar o que ela desejaria, porque essa conversa já aconteceu. Por isso, quem quer ser doador precisa falar sobre isso em casa”, orienta a intensivista do Hospital Angelina Caron.

Desde 2024, também é possível registrar gratuitamente essa intenção por meio da Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos, a AEDO, regulamentada pelo Conselho Nacional de Justiça. A declaração pode ser feita pelo sistema e-Notariado e fica disponível para consulta pelos órgãos responsáveis pelo Sistema Nacional de Transplantes. Mesmo com o registro, entretanto, a família continua sendo consultada e precisa autorizar a doação.

Assim, para quem deseja fazer valer sua vontade, há duas atitudes possíveis: conversar claramente com os familiares e, se desejar, formalizar também essa manifestação pela AEDO.

O que acontece depois que a família autoriza?

Confirmada a morte encefálica e obtida a autorização familiar, começa outra etapa. A equipe médica avalia a viabilidade clínica da doação e são realizados exames para definir quais órgãos e tecidos podem ser aproveitados. Em seguida, a Central de Transplantes cruza as informações do doador com os pacientes que aguardam na lista. A escolha não é feita pela família nem pelo hospital. O Sistema Nacional de Transplantes considera critérios como gravidade, compatibilidade sanguínea e anatômica, tempo de espera e outras condições médicas.

Definidos os receptores, entra em funcionamento uma logística que envolve hospitais, equipes transplantadoras, Central de Transplantes e transporte terrestre ou aéreo, dependendo da distância e do tempo disponível para preservação de cada órgão. No Paraná, essa estrutura funciona 24 horas. A retirada dos órgãos acontece em centro cirúrgico, com técnica semelhante à empregada em outras cirurgias. Depois, o corpo é recomposto e entregue à família, não impedindo a realização de velório e sepultamento.

Paraná está entre os estados com maior taxa de doação do Brasil

Os indicadores paranaenses ajudam a mostrar o impacto da decisão familiar. Dados consolidados de 2025 divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde mostram que o Paraná alcançou 38,9 doadores efetivos por milhão de habitantes, a segunda maior taxa do país, enquanto a média brasileira ficou em 20,3. A recusa familiar no Estado foi de 33%, abaixo da média nacional de 45%.

No mesmo ano, foram realizados 2.255 transplantes de órgãos e tecidos no Paraná, entre eles 460 transplantes renais, 293 de fígado, 31 de coração, 1.066 de córnea e 405 de medula óssea. A estrutura estadual conta com Organizações de Procura de Órgãos em Curitiba, Londrina, Maringá e Cascavel, hospitais notificantes, equipes transplantadoras, laboratórios e centenas de profissionais envolvidos nas diferentes etapas do processo.

“O Paraná tem resultados muito importantes, mas cada número começa em uma decisão tomada por uma família num momento de enorme dor. Por isso, quando falamos em doação, estamos falando também de informação, confiança e respeito à vontade de quem partiu. Quanto mais essa conversa acontecer antes, menos difícil será decidir quando chegar um momento que ninguém gostaria de enfrentar”, afirma a especialista.

Ser doador começa antes da doação

Não é preciso esperar uma situação de doença para conversar sobre o assunto. Quem deseja ser doador pode comunicar essa decisão à família hoje. Não há garantia de que uma pessoa será efetivamente doadora, porque isso dependerá das circunstâncias da morte e das condições clínicas dos órgãos e tecidos. Mas deixar a vontade conhecida pode ser determinante caso a possibilidade de doação exista.

No Setembro Verde, essa talvez seja a mensagem mais simples e a mais importante: quer ser doador? Conte à sua família. A conversa pode durar poucos minutos. Para quem aguarda um transplante, seus efeitos podem durar uma vida inteira.

Fontes oficiais consultadas: Ministério da Saúde, Sistema Nacional de Transplantes; Conselho Federal de Medicina, Resolução nº 2.173/2017; Conselho Nacional de Justiça; Secretaria de Estado da Saúde do Paraná e Sistema Estadual de Transplantes do Paraná.

#Morte encefálica #Doação de órgãos #Transplante de órgãos #Setembro Verde #Doação de órgãos no Paraná #Autorização familiar #AEDO #Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos #Sistema Nacional de Transplantes #Transplante #Saúde #Hospital Angelina Caron