5 mil tsurus para representar uma espera que não pode ser esquecida
Instalação do Hospital Angelina Caron no Aeroporto Afonso Pena transforma milhares de dobraduras em um símbolo das pessoas que aguardam por um transplante no Paraná
Uma dobradura de papel pode parecer pequena. Mas, quando 5 mil delas são reunidas, a dimensão de uma espera começa a ganhar forma.
É essa a proposta da instalação que integra a terceira edição da exposição Histórias de Transplantes, do Hospital Angelina Caron (HAC), no Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais. Entre 21 de setembro e 21 de outubro, durante o Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos, 5 mil tsurus representam as mais de 5 mil pessoas que aguardam por um transplante no Paraná.
A escolha do tsuru não é por acaso. Na cultura japonesa, a ave é tradicionalmente associada à esperança, à longevidade e a bons desejos. Na exposição, cada pássaro também carrega uma mensagem sobre espera, solidariedade e possibilidade de recomeço.
Confira a reportagem clicando no link.
5 mil tsurus, 130 mil dobraduras
Chegar aos 5 mil tsurus foi um trabalho que começou pelas mãos de uma origamista e ganhou novas mãos ao longo do caminho.
Cada tsuru é construído a partir de 26 dobraduras. Isso significa que, para formar os 5 mil pássaros da instalação, foram necessárias aproximadamente 130 mil dobraduras.
Mais do que um número, esse cálculo ajuda a dimensionar o trabalho envolvido na construção da instalação e traduz, de certa maneira, a ideia de que grandes transformações são feitas de pequenos gestos repetidos muitas vezes.
A produção começou com o trabalho da origamista, responsável por confeccionar parte das peças e dar forma ao projeto. Depois, outras pessoas passaram a fazer parte da construção.
Foram realizadas oficinas de origami no Hospital Angelina Caron e na ASUR Brasil, no Aeroporto Afonso Pena, envolvendo diferentes públicos. Colaboradores, pacientes, acompanhantes, voluntários e pessoas que se sensibilizaram com a causa também dobraram papéis e contribuíram para que a instalação chegasse aos milhares de tsurus.
Cada pessoa que participou deixou, literalmente, uma parte de si na exposição.

A equipe de colaboradores da ASUR Brasil, Aeroporto Afonso Pena
A produção dos tsurus acabou se tornando uma extensão da própria mensagem da exposição.
Em um transplante, muitas pessoas estão envolvidas em uma mesma história: existe quem espera por um órgão, quem recebe uma nova oportunidade, a família do doador, profissionais de saúde e toda uma rede que torna o procedimento possível.
A instalação segue essa mesma lógica.
Um único tsuru não seria capaz de representar a dimensão dessa espera. Mas milhares deles, construídos por muitas mãos, conseguem transformar um número em algo que pode ser percebido.
É também por isso que as oficinas tiveram um papel importante. Ao participar da dobradura, as pessoas não apenas ajudaram a produzir uma peça da instalação. Elas tiveram a oportunidade de entrar em contato com o tema da doação de órgãos e refletir sobre as histórias que existem por trás de cada número.
Quem passar pelo aeroporto também pode participar
Quem passar pelo saguão de embarque do Aeroporto Internacional Afonso Pena durante o período da mostra também poderá contribuir com essa história. Haverá folhas disponíveis para que os visitantes possam retirar uma, dobrar seu próprio tsuru e contribuir com a instalação.
A proposta é simples: pegar uma folha, fazer as dobraduras e dedicar alguns minutos a uma causa que envolve milhares de pessoas.
Assim, cada novo tsuru produzido no aeroporto se soma simbolicamente aos milhares que já compõem a instalação.
Uma folha se transforma em um pássaro. Um gesto simples se transforma em participação. E uma conversa sobre doação de órgãos pode começar a partir daí.
De dentro do hospital para milhares de pessoas
A escolha do local amplia o alcance da mensagem. Aproximadamente 326 mil passageiros passam pelo embarque do aeroporto todos os meses, fazendo com que a exposição encontre pessoas de diferentes cidades e regiões.
Em meio ao movimento de quem chega, parte e segue viagem, os 5 mil tsurus convidam a uma pausa.
Histórias que vão além dos números
A instalação faz parte da exposição Histórias de Transplantes, criada pelo Hospital Angelina Caron para aproximar a sociedade das histórias de pacientes transplantados e ampliar a conscientização sobre a importância da doação de órgãos.
Em vez de falar sobre transplantes apenas por meio de números, a exposição coloca as pessoas no centro da narrativa.
Uma dessas histórias é a de Keteling Maiara da Silva de Farias, de 27 anos, que já esteve entre as pessoas que aguardavam por essa oportunidade.
Diabética desde os seis anos, ela descobriu a insuficiência renal após enfrentar a perda da visão e passou três anos e meio em hemodiálise. Nesse período, chegou a ser chamada algumas vezes para um possível transplante, mas a incompatibilidade dos órgãos adiou o procedimento.
O desgaste físico e emocional foi tamanho que, em determinado momento, pensou em desistir.
A oportunidade veio no Hospital Angelina Caron e marcou o início de uma nova fase. Hoje, além de ter retomado a rotina, Keteling encontrou no esporte uma forma de ressignificar a própria história e já coleciona medalhas em competições.
“Essas medalhas não são só minhas. Tudo o que estou conseguindo hoje também é graças à família do doador, que, no momento mais difícil do luto, me deu a chance de permanecer aqui. Eu preciso fazer essa oportunidade valer a pena. Por isso, cada medalha que conquisto também é da família do meu doador”, afirma.
Histórias como a de Keteling ajudam a mostrar que, por trás de cada transplante, existe muito mais do que um procedimento médico. Existe uma espera, uma família, uma decisão e a possibilidade de uma nova história.
25 anos de uma trajetória ligada aos transplantes
Em 2026, o Hospital Angelina Caron completa 25 anos de atuação em transplantes.
Desde o início do serviço, em 2001, o hospital já realizou 3.401 transplantes, número contabilizado até 16 de agosto de 2026. Somente neste ano, até a mesma data, foram 98 procedimentos, entre transplantes de rim, fígado, coração, pâncreas-rim, córneas e medula óssea, além do transplante renal intervivos.
Em 2026, o hospital já contabiliza 34 transplantes renais, 24 de fígado, 20 de medula óssea e quatro de coração, entre outros procedimentos.
São 25 anos de atuação em uma área que exige estrutura de alta complexidade, equipes especializadas e acompanhamento contínuo dos pacientes.
Essa experiência também está na origem da exposição Histórias de Transplantes.
“É motivo de muito orgulho olhar para essa trajetória e para o que o Serviço de Transplantes do Hospital Angelina Caron representa hoje para o Paraná. Esse reconhecimento foi construído ao longo de muitos anos, com dedicação, conhecimento e o trabalho de equipes altamente especializadas. Ser referência também nos traz a responsabilidade de continuar avançando, qualificando a assistência e estando ao lado de pacientes e famílias em um dos momentos mais importantes de suas vidas”, afirma Dr. João Eduardo Leal Nicoluzzi (CRM-PR 14148), coordenador e chefe do Serviço de Transplantes do Hospital Angelina Caron.
Paraná e a doação de órgãos
Os dados também ajudam a entender a dimensão da causa.
Em 2025, o Paraná registrou 2.255 transplantes de órgãos e tecidos, segundo dados divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde do Paraná com base no Registro Brasileiro de Transplantes. Foram 460 transplantes de rim, 293 de fígado, 31 de coração, 1.066 de córnea e 405 de medula.
O Estado alcançou 38,9 doadores efetivos por milhão de habitantes em 2025, segunda maior taxa do Brasil e quase o dobro da média nacional, de 20,3. A taxa de recusa familiar à doação no Paraná ficou em 33%, enquanto a média brasileira foi de 45%.
Em 2024, o Paraná registrou 500 doadores efetivos, que possibilitaram 903 transplantes de órgãos e 1.248 transplantes de córneas. Naquele ano, o Estado alcançou 42,3 doadores por milhão de habitantes e liderou o Brasil pelo segundo ano consecutivo.
Mas, mesmo diante desses números, milhares de pessoas continuam aguardando por um transplante.
Por isso, falar sobre doação continua sendo necessário.
Uma conversa que pode mudar uma história
O Dia Nacional da Doação de Órgãos é celebrado em 27 de setembro, durante o Setembro Verde.
No Brasil, mesmo que uma pessoa tenha manifestado em vida o desejo de ser doadora, a doação de órgãos após a morte depende da autorização familiar. Por isso, comunicar às pessoas próximas o desejo de ser doador é uma das principais mensagens da campanha.
Para o Hospital Angelina Caron, levar essas histórias para fora do ambiente hospitalar também é uma maneira de aproximar a população de um assunto que muitas vezes só entra na conversa quando uma família se depara diretamente com ele.
“Por trás de cada transplante existem duas famílias vivendo momentos profundamente diferentes: uma enfrenta a dor da perda e, em meio a ela, toma uma decisão de enorme generosidade; a outra recebe uma nova possibilidade de vida. É essa conexão que queremos tornar visível. Falar sobre doação de órgãos dentro de casa é um gesto simples, mas que pode mudar o destino de muitas pessoas”, afirma Bernardo Caron, Co-CEO do Hospital Angelina Caron.
Dúvidas frequentes sobre doação de órgãos
Quando o assunto é doação de órgãos, é comum surgirem dúvidas sobre quem pode doar, quais condições de saúde podem impedir a doação e o que é necessário fazer para manifestar esse desejo.
Existe idade para ser doador de órgãos?
Não existe uma idade máxima única que determine quem pode ou não ser doador. A possibilidade de doação depende principalmente da condição clínica da pessoa e da avaliação da viabilidade dos órgãos e tecidos no momento da doação.
Por isso, ter idade avançada não significa, por si só, que uma pessoa não possa ser doadora. A avaliação é feita pela equipe responsável pelo processo de doação e transplante.
Quem tem uma doença autoimune pode ser doador?
Ter uma doença autoimune não significa automaticamente que a pessoa esteja impedida de doar. A possibilidade depende da doença, das condições clínicas do doador e da avaliação de cada órgão ou tecido.
Algumas doenças autoimunes podem comprometer determinados órgãos ou exigir cuidados específicos. Por isso, a decisão é individualizada pela equipe médica responsável pela avaliação do potencial doador.
Preciso fazer algum cadastro para ser doador?
Não. No Brasil, não existe um cadastro nacional de doadores de órgãos.
O mais importante é conversar com a família e deixar claro o desejo de ser doador. A legislação brasileira estabelece que a doação após a morte depende da autorização familiar.
Minha família pode autorizar a doação mesmo que eu nunca tenha falado sobre isso?
Sim. A família é responsável por autorizar a doação após a morte.
Por isso, conversar previamente sobre o assunto é tão importante. Quando os familiares conhecem a vontade da pessoa, podem considerar esse desejo no momento de tomar a decisão.
Quem pode doar órgãos em vida?
A doação em vida é possível em situações específicas. O doador vivo precisa ser juridicamente capaz, estar em condições satisfatórias de saúde e concordar com a doação, sem que ela prejudique sua própria saúde.
Dependendo do caso, podem ser doados um rim, parte do fígado, parte do pulmão ou medula óssea. Existem critérios específicos de parentesco e, em determinadas situações, necessidade de autorização judicial.
Quais órgãos e tecidos podem ser doados?
Entre os órgãos que podem ser transplantados estão rins, fígado, coração, pulmões, pâncreas e intestino.
Também podem ser doados tecidos como córneas, pele, ossos, tendões, vasos e valvas cardíacas, entre outros.
A possibilidade de doação depende das condições clínicas do potencial doador e da avaliação realizada pela equipe especializada.
Para quem vão os órgãos doados?
Os órgãos são destinados a pacientes que aguardam por um transplante na lista de espera.
A distribuição considera critérios técnicos, como compatibilidade, urgência e tempo de espera, entre outros fatores específicos de cada modalidade de transplante.
Serviço
Exposição Histórias de Transplantes – Hospital Angelina Caron
Período: 21 de setembro a 21 de outubro de 2026
Local: Aeroporto Internacional Afonso Pena – saguão de embarque
São José dos Pinhais – Paraná