Saúde

Câncer de pâncreas: avanço científico abre novas possibilidades para o tratamento

Por · 23/9/2026

Terapia aprovada nos Estados Unidos consegue agir sobre mecanismo molecular frequente nesse tipo de tumor e traz resultados importantes para pacientes com doença avançada

Durante muitos anos, encontrar medicamentos capazes de agir diretamente sobre alguns dos principais mecanismos envolvidos no câncer de pâncreas foi uma das tarefas mais difíceis da oncologia. Uma aprovação anunciada nos Estados Unidos em agosto mostra que esse cenário começa a mudar.

A Food and Drug Administration (FDA) autorizou o uso do daraxonrasib para um grupo específico de adultos com adenocarcinoma pancreático metastático. A decisão veio após um estudo com 500 pacientes demonstrar resultados relevantes tanto no controle da doença quanto no tempo de vida dos participantes.

Para quem acompanha a evolução do tratamento oncológico, a notícia tem um significado que vai além da chegada de mais um medicamento. A terapia consegue interferir na família de proteínas RAS, ligada à multiplicação das células e frequentemente alterada no câncer de pâncreas. Por muito tempo, encontrar uma maneira eficaz de atingir esse mecanismo foi considerado um dos grandes obstáculos da pesquisa.

“Quando conseguimos avançar sobre um mecanismo que durante décadas foi extremamente difícil de atingir, abre-se uma perspectiva importante. Ainda temos um longo caminho no tratamento do câncer de pâncreas, mas resultados como esse mostram que a pesquisa está conseguindo transformar conhecimento sobre o tumor em novas possibilidades para os pacientes”, afirma Dr. Jorge Itsuo Fukushima, oncologista clínico e presidente do Hospital Angelina Caron.

Resultados que chamaram a atenção

A pesquisa que sustentou a autorização norte-americana, denominada RASolute 302, acompanhou adultos com câncer de pâncreas metastático que já haviam passado por tratamento sistêmico.

Parte dos participantes recebeu daraxonrasib e os demais seguiram com quimioterapia definida pelo médico. A comparação mostrou uma diferença expressiva. Entre aqueles que utilizaram o novo medicamento, a mediana de sobrevida global foi de 13,2 meses, enquanto no grupo comparador ficou em 6,7 meses. Os dados também apontaram redução de 60% no risco de morte durante o período analisado.

O tempo mediano sem progressão da doença passou de 3,6 para 7,2 meses. Além disso, houve redução mensurável do tumor em 30% dos pacientes que receberam daraxonrasib, ante 11% entre os tratados com quimioterapia.

Os números são importantes, mas não funcionam como uma previsão para cada pessoa.

“Cada organismo e cada tumor apresentam comportamentos próprios. Quando falamos em mediana de sobrevida, estamos descrevendo o resultado de uma população estudada, e não estabelecendo quanto tempo um determinado paciente viverá. O valor desse estudo está em demonstrar um benefício consistente em uma situação clínica na qual precisamos muito de novas alternativas”, explica Dr. Luciano Saboia.

Por que essa descoberta é diferente?

A medicina tem conseguido conhecer os tumores com uma precisão cada vez maior. Além de saber em qual órgão o câncer começou e até onde ele se espalhou, hoje é possível investigar alterações moleculares que participam diretamente do desenvolvimento da doença. É nesse nível que o daraxonrasib atua.

As proteínas RAS funcionam como parte de um sistema de comunicação das células. Quando esse sistema sofre determinadas alterações, pode permanecer excessivamente ativo, favorecendo a multiplicação das células cancerígenas. Esse processo tem papel particularmente importante no adenocarcinoma pancreático.

A ciência conhecia essa relação havia muito tempo. O desafio era conseguir transformá-la em um ponto vulnerável para o tratamento. O daraxonrasib atua sobre diferentes formas da família RAS. A capacidade de alcançar um alvo historicamente tão difícil ajuda a explicar por que a aprovação despertou interesse na comunidade médica. 

“Quanto mais conhecemos a biologia de um tumor, maiores são as possibilidades de procurar seus pontos vulneráveis. Esse é um dos movimentos mais importantes da oncologia atual. A relevância de uma descoberta como essa também está no conhecimento que ela deixa para os próximos estudos e para o desenvolvimento de outras terapias”, acrescenta o especialista.

Um tumor que exige atenção

A necessidade de novos caminhos fica evidente diante do impacto da doença. A estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indica 13.240 novos diagnósticos de câncer de pâncreas por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Para Curitiba, são esperados cerca de 170 casos em 2026.

Uma das razões que tornam esse câncer particularmente complexo é a dificuldade de identificá-lo cedo. O pâncreas está situado em uma região profunda do abdome e a doença pode se desenvolver inicialmente sem manifestações características.

Em alguns casos, perda de peso sem motivo aparente, diminuição do apetite, dor no abdome ou nas costas, alterações digestivas, fraqueza e icterícia podem surgir ao longo da evolução. Esses sinais também aparecem em outras condições e, isoladamente, não significam câncer. Quando persistem, no entanto, precisam ser investigados.

A fase em que o tumor é descoberto influencia diretamente as possibilidades terapêuticas. Quando está localizado e pode ser retirado completamente, a cirurgia pode integrar o tratamento com intenção curativa. Se a doença já alcançou outros órgãos, são utilizadas estratégias sistêmicas para controlar sua evolução, aumentar a sobrevida e preservar a qualidade de vida.

O que muda para os pacientes?

A aprovação do daraxonrasib ocorreu nos Estados Unidos e é direcionada a adultos com adenocarcinoma pancreático metastático que já passaram por pelo menos uma terapia sistêmica ou que não possam receber determinados esquemas com múltiplos medicamentos.

Portanto, não se trata de um tratamento indicado para todas as pessoas diagnosticadas com câncer de pâncreas. Também é importante esclarecer que uma autorização concedida pela FDA não torna o medicamento automaticamente disponível no Brasil. A utilização regular no país depende das etapas regulatórias brasileiras.

“Uma notícia positiva precisa ser acompanhada de informação responsável. Existe um avanço real, mas ele tem critérios bem definidos. O tratamento oncológico continua sendo individualizado e considera o estágio da doença, as características do tumor, o que já foi utilizado anteriormente e a condição clínica de cada pessoa”, reforça Dr. Jorge.

Ciência transforma esperança em novos caminhos

Para pacientes e familiares, falar em câncer de pâncreas ainda significa conviver com uma doença de tratamento complexo. Mas o cenário científico não é estático. Ao longo dos últimos anos, a oncologia passou a contar com terapias capazes de agir sobre características cada vez mais específicas dos tumores. O que aconteceu com RAS mostra como esse processo pode alcançar também barreiras que pareciam difíceis demais para serem superadas.

A nova terapia não representa o fim dos desafios relacionados ao câncer de pâncreas, nem substitui as alternativas atualmente utilizadas. Seu significado está justamente em acrescentar uma possibilidade para determinados pacientes e demonstrar que há espaço para mudar um cenário que permaneceu limitado durante muito tempo.

“Esperança, na medicina, precisa estar apoiada em evidências. E é isso que torna esse momento relevante. Ainda precisamos avançar muito, mas hoje existe uma nova possibilidade onde antes havia uma barreira. Cada descoberta desse tipo amplia o conhecimento e nos aproxima de tratamentos melhores e mais personalizados”, conclui Dr. Jorge Itsuo Fukushima.

A história do tratamento do câncer é construída dessa maneira: uma descoberta leva a outra, uma dificuldade superada permite formular novas perguntas e aquilo que parecia distante começa a se aproximar da prática médica. Para o câncer de pâncreas, a aprovação do daraxonrasib representa mais um desses passos.

Fontes: Food and Drug Administration (FDA) e Instituto Nacional de Câncer (INCA).

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